segunda-feira, 13 de agosto de 2007

#88 - Fernando Pessoa - A Metafísica do Bigode

O bigode de Fernando Pessoa não é nada. Nunca será nada. Não pode querer ser nada. À parte isso, tem em si os sonhos de todos os bigodudos do mundo.

Ensimesmado e metafísico, o lustroso bigodinho era fonte de angústia constante para o poeta, incapaz de elucidar a eterna questão: é o homem que define o bigode ou o bigode que define o homem? Enquanto cofiava o pessoano moustache pelas ruelas de Lisboa, não havia mendigo que não invejasse só por não ter que se preocupar com tão capilares questões.

Um dia, cansado de tanta tortura, Pessoa pôs em prática o experimento definitivo: cindiu-se em três e criou os famosos heterônimos, cada qual com sua peluda peculiaridade: o pacífico Alberto Caeiro, amante da natureza e inimigo da metafísica, recusava-se a debelar o buço e ostentava uma riponga pentelhama sobre os lábios; o romântico Ricardo Reis modelava o seu à pinça, como um Don Juan de vocabulário intumescido; o furibundo Álvaro de Campos cuspia versos brancos em sua negra bigoda nietzschiana, afiada com um faca fundida no Inferno.

Vencido pelo dilema, Pessoa entregou-se a uma vida vegetativa. Passava o dia em casa, sem camisa. À noite, subia e descia a Rua do Ouro, pensando em tudo que não era a Rua do Ouro. Já brincava com a idéia de suicídio quando olhou pela janela e viu, de relance, um rosto conhecido sob uma tabuleta familiar. Botou a cabeça pra fora e, acenando desengonçadamente, gritou: "Adeus ó Esteves". E o dono da Barbearia sorriu.

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Contribuição de Guilherme Freitas, futuro correspondente itinerante do IdB em Lisboa, São Petersburgo e Istambul.

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